Cura Gay: cobaias de um tratamento com garantia científica de não funcionar | Portal Alice Glitz

Cura Gay: cobaias de um tratamento com garantia científica de não funcionar

Quando me assumi gay para meus pais, lá em 2002, uma das primeiras coisas que eles disseram foi que seria uma boa ideia eu visitar um psicólogo.

Ser gay não era uma declaração que se fizesse tão frequentemente naquela época, ainda mais aos 15 anos e sem qualquer experiência sexual prévia. Somado ao fato de que eu era socialmente inadequado e sofria segregação por colegas da escola, meus pais queriam ter certeza absoluta de que eu não estava enganado.

Eles queriam garantias de que eu não estava levantando uma bandeira que iria apenas dificultar minha vida para depois descobrir que tudo havia sido um mal-entendido.

Não me assustei. Desde cedo fui bem informado sobre o que esperar de uma consulta ao psicólogo; quais eram os códigos de ética que eles seguiam, o que poderia ou não acontecer dentro de um consultório. E um dos motivos pelos quais estive bem tranquilo, foi a garantia de que meu terapeuta teria a obrigação de reconhecer minha orientação sexual como algo natural.

Para muitos conhecidos, homossexualidade era sinônimo de perversão. Pessoas homossexuais tinham se tornado assim por diversos motivos folclóricos, como ter uma mãe dominadora, falta de apanhar, ausência de bússola moral ou simples má índole.

Acima de tudo, para essas pessoas, ser gay jamais poderia ser motivo de orgulho. Uma pessoa acometida por esta orientação deveria buscar ajuda e fazer o possível para se enquadrar no padrão heterossexual, caso contrário estaria condenada à infelicidade e ostracismo.

O psicólogo, no entanto, tinha o papel de discutir o preconceito, proporcionar condições de aceitação e aumento da autoestima, independente de seu próprio código moral. Ao menos no papel. Ao menos de acordo com a Resolução 001/1990 do Conselho Federal de Psicologia, que proibia a terapia de reversão sexual.

Eis que agora o papel foi trocado. Ou melhor: reinterpretado.

No dia 15 de setembro de 2017, uma liminar foi assinada pelo MM. Juiz Federal Waldemar Cláudio de Carvalho. Enquanto ela não suspende a Resolução do Conselho, ainda assim permite aos psicólogos não apenas pesquisar possibilidades de reorientação sexual, comumente chamada de cura gay, mas também atender a pacientes com este propósito.

Não me entenda mal: sou totalmente a favor das liberdades individuais. Desde que aquilo não afete terceiros, por que alguém deveria se importar? E a resposta é que, para mim, esta decisão nos afeta a todos, como sociedade.

Trabalhos científicos rigorosos já foram publicados sobre o assunto (por exemplo Birk, Huddleston, Miller, & Cohler, 1971; James, 1978; McConaghy, 1969, 1976; McConaghy, Proctor, & Barr, 1972; Tanner, 1974, 1975) e descobriram que orientação sexual não é uma característica passível de mudança mediante procedimentos.

Assim sendo, a psicologia oferecer tratamentos referentes a reorientação sexual nada mais é que charlatanismo. Comparável a um oncologista prometer a cura do câncer a partir do poder das fadas e ser aceito como um tratamento médico ortodoxo.

Ou seja, significa usar pessoas como cobaias de um tratamento com garantia científica de não funcionar. Indo além, esta liminar empodera pessoas que enxergam homossexualidade como uma doença e fragiliza pessoas que já estão vulneráveis por conta da homofobia vigente.

O Juiz falhou em observar que sua decisão prioriza a curiosidade de pesquisadores ineptos em detrimento do bem-estar das pessoas que a psicologia deveria proteger. E que por valorizar a liberdade individual, gerou um problema social que em sua ignorância não teria capacidade de prever.

 

Créditos: Caroline Arnold/ Divulgação

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